sexta-feira, 25 de março de 2011

Noite de Rockabilly




Na noite de sábado, 19 de março, aconteceu no Espaço Cultural Barros Jr. um evento de rockabilly, rock dos 50 e 60, com as bandas Hellgrass e Annie & The Malagueta Boys.

Atraindo vários fãs do estilo, o evento foi bastante elogiado e promete ter mais edições nos próximos meses.

A banda curitibana de Annie adorou a cidade e se manteve animada, levando os fãs à loucura. Muita música e dança de qualidade foram os carros chefe da noite.

Galeria de fotos e texto na íntegra.

Silmar Oliveira - Maestro formado pela Unicamp. Trabalha com Educação em vários níveis. Coordena o Espaço Cultural Barros Junior. Também atuante como Músico em múltiplos projetos. Possui Especialização em Gestão Educacional.

sábado, 12 de março de 2011

Direito Autoral - Mais Elementos para o Debate

Do Luis Nassif

Por alberto manoel ruschel filho

TERCEIRA VIA PARA O DIREITO AUTORAL

Nassif, dá uma olhadinha nisso? Acho que vale a pena divulgar.
Assinei.
http://brasilmusica.com.br/site/

Artistas e Produtores redigiram esta carta aberta em defesa de seus legítimos interesses e convocam todos os setores da cultura para um debate aberto e democrático sobre a reforma da lei de direitos autorais.

TERCEIRA VIA PARA O DIREITO AUTORAL

O debate sobre a reforma da Lei de Direitos Autorais tem cada vez mais se polarizado entre os que defendem a manutenção do sistema atual e aqueles que querem flexibilizar radicalmente as regras. Posições extremas que levam a um impasse incontornável e perigoso. 

Nenhum desses pontos de vista nos parecem equilibrados ou conscientes dos problemas, desafios e possibilidades gerados pela nova ordem digital. Uma proposta conciliadora deverá preservar fundamentos conquistados durante anos de trabalho da classe autoral e também incluir a nova cultura de acesso e consumo de bens culturais. O futuro não deve aniquilar o passado. O passado não pode evitar a chegada do futuro.

A grande questão a ser respondida, como propôs o diretor geral da OMPI (Organização Mundial da Propriedade Intelectual), Francis Gurry, é: Como a sociedade pode tornar as obras culturais disponíveis para o maior público possível, a preços acessíveis e, ao mesmo tempo, assegurar uma existência econômica digna aos criadores e intérpretes e aos parceiros de negócios que os ajudam a navegar no sistema econômico? Uma resposta adequada virá de “ uma combinação de leis, infraestrutura, mudança cultural, colaboração institucional e melhores modelos de negócio”, ou seja, será fruto de um pacto entre diversos setores da sociedade.

Diante deste cenário, propomos uma Terceira Via para o debate sobre Direitos Autorais que agrega ideias e expande a abordagem. Entre nossas demandas destacam-se:

1. Defesa do Direito Autoral
Entendemos ser fundamental a preservação do direito autoral – inclusive no ambiente digital. É urgente a criação de mecanismos para remuneração do autor na Internet com o estudo de novas possibilidades de arrecadação no meio digital. Nesse sentido, a meta é uma política que, sem criminalizar o usuário, garanta a remuneração dos criadores e seus parceiros de negócios. Defendemos igualmente maior rigor com rádios e TVs inadimplentes.

2. Associações de Titulares de Direitos Autorais democráticas e representativas
As Associações precisam aprimorar seus mecanismos de decisão, envolver todos os autores e titulares em um ambiente democrático para garantir sua legitimidade mediante representação real e efetiva. Através do uso da tecnologia, as Associações devem modernizar a comunicação com autores e titulares, mostrar transparência, simplicidade e eficiência.

3. Aprimoramento Tecnológico e Transparência do ECAD
Defendemos o fortalecimento e a evolução do ECAD através da modernização e informatização total do sistema de gestão coletiva tanto no mundo real quanto digital. É fundamental a simplificação dos critérios de arrecadação e distribuição com transparência total.

4. Criação de um Órgão Autônomo de Regulação do ECAD
Criação de um órgão – cuja composição precisa ser cuidadosamente estudada – que promova a mediação de interesses, a transparência na gestão coletiva, além da fiscalização e regulação do sistema de arrecadação e distribuição de Direitos Autorais no Brasil.

5. Um ente governamental de alto nível dedicado à Música
A Música precisa ser entendida como força econômica importantíssima – inclusive para exportação da imagem e dos valores de nosso país – que, por se encontrar dispersa, requer aglutinação. A criação de uma “Secretaria da Música”, ligada ao Ministério da Cultura, é essencial para que o governo tenha um ponto de contato com o setor em sua totalidade. Este órgão precisa de poder decisório e capacidade de articulação para agir tanto como ponto focal para que o setor se organize ao seu redor quanto ser o interlocutor dentro do próprio governo, pela transversalidade inerente ao campo de atuação da Música.

Diante da relevância do tema para as políticas culturais do país e do mundo, pelo potencial de geração de riquezas, pela sua importância simbólica, cultural, política e social, pedimos que a reforma do sistema de direitos autorais e a criação da Secretaria da Música sejam entendidas como prioridades para o Estado brasileiro.

Colocamo-nos à disposição do Ministério da Cultura para um dialogo aberto e equilibrado. Temos certeza que juntos podemos construir o mais avançado, moderno e transparente sistema de Direitos Autorais do planeta, e aprimorar nossa Música – cultural e economicamente – através de politicas democráticas.

NOTA: Gostaríamos de registrar nosso repudio a todo e qualquer debate ofensivo e desrespeitoso. Apoiamos, acima de tudo, a troca de ideias inteligente e equilibrada
 

(seguem as assinaturas que podem ser conferidas no link)

OUTRAS OPINIÕES NO MESMO LINK


D

Resolver esta pendência, a dos direitos autorais, tem a ver com a democratização da cultura, dos meios de comunicação, etc. Faço minhas as palavra de Emir Sader, neste texto publicado agora na Carta Maioir.

Emir Sader cita que,  tem medo da democracia quem "tem medo dos jovens, que não leem jornais, mas leem e escrevem na internet, irreverentes, que lutam pela liberdade de expressão e de formas de viver, em todas as suas formas. Tem medo dos intelectuais críticos e independentes, que não tem medo do poder dos monopólios e da imprensa mercantil e suas chantagens. Tem medo dos artistas e da sua criatividade sem cânones dogmáticos e sem pensar no dinheirinho dos direitos de autor, mas na liberdade de expressão e na cultura como um bem comum. Tem medo dos nordestinos pobres, que como Lula, não se rendeu à pobreza e à discriminação e se tornou o presidente mais popular do Brasil. Tem medo de que todos eles queiram ser como o Lula.

Quem tem medo da democracia no Brasil tem saudade da ditadura, quando detinha o monopólio da palavra, conversavam e elogiavam os militares no poder, sem que ninguém pudesse contestá-los publicamente. Os que têm saudades do Brasil para poucos, da elite que cooptava intelectuais para governar em nome dela.

Quem não tem medo da democracia no Brasil não tem medo de nada, porque não tem medo do povo brasileiro."

http://www.cartamaior.com.br/templates/postMostrar.cfm?blog_id=1&post_id=678


Pedro Germano Leal

Onde essa proposta pensa "Como a sociedade pode tornar as obras culturais disponíveis para o maior público possível, a preços acessíveis e, ao mesmo tempo, assegurar uma existência econômica digna aos criadores e intérpretes e aos parceiros de negócios que os ajudam a navegar no sistema econômico?"

Será uma pergunta retórica?

Algumas observações:

1. Ninguém questiona o direito do autor (essa é uma falácia do tipo red herring para desviar o foco da discussão);

2. O maior impedimento para a concretização é justamente o ECAD;

3. Onde fortalecer o ECAD pode significar tornar obras culturais disponíveis para o maior público possível? Este item, note-se, é diametralmente oposto ao 2.;

4. Criar um órgão que regule o ECAD, sem mudar suas criminosas atribuições, só legitimará o ECAD e a usurpação da cultura no país. Vamos criar uma agência que servirá para radicalizar a política equivocada do ECAD sob um ponto de vista legal e de governo; Fica claro que o interesse não é na 'terceira via' e sim no benefício do ECAD (e, por extensão, das grandes empresas), e não da população e dos artistas (inocentes úteis que assinam a proposta);

5. Criar secretaria não é um problema para a Ana de Hollanda: ela já criou uma que tem como função pensar no que serve.

Considerações gerais:

A. A proposta é tão mal-escrita que se sabota;

B. Produz uma contradição grave: fala da importância de garantir o acesso a cultura, mas não aponta em momento algu qualquer proposta para tanto. Muito pelo contrário: sugere o fortalecimento do ECAD - com outras palavras, mais poder, mais legitimidade, mais controle desse órgão absurdo que age contra o acesso a informação/cultura, no nome de seus próprios interesses (e das grandes gravadoras que estão por trás disso);

C. Se quisesse proteger o artista, e o acesso a cultura, pensaria no fim do ECAD e a criação de um órgão governamental para assegurar que as grandes gravadoras não forcem os artistas a contratos famélicos, por exemplo, e que não explore e represente artistas sem que os mesmos sequer tenham delegado esses poderes; deviam pensar que as obras produzidas com DINHEIRO PÚBLICO deveriam ser PÚBLICAS, a não ser que os produtores devolvessem os recursos com a posterior comercialização, incluindo juros e correção; o produto desses trabalhos, financiados pelo governo, deveriam ser disponibilizados gratuitamente no site do MinC, ou mesmo reproduzidos/distribuídos em parcerias entre o MinC e a iniciativa privada;

D. Como disse o Ricardo Pereira, essa proposta não muda em nada a atual configuração do MinC. É tão 'terceira via' quanto a candidatura da Marina (diante da relação incestuosa entre o PV e o PSDB).

Anarquista Lúcida

Nao é terceira via nenhuma. É a mesma m. que está aí embrulhada de outro modo para ver se engana os trouxas. A única coisa diferente seria a agência que controlaria o ECAD.

É preciso mexer na Lei de Direitos Autorais, regulamentar o "fair use", impedir cobrança sobre atividades nao lucrativas, ou cujo lucro nao venha da música ou dos audiovisuais, diminuir o prazo de vigência dos direitos após a morte do autor -- 70 anos após a morte é um absurdo completo --, impedir que herdeiros se apossem da biografia dos autores (isso até O Globo concorda... eles têm editora, e sabem como isso atrapalha a ediçao de histórias da cultura, biografias, etc), e muitas outras coisas.

E tirar do ECAD o poder de taxar qualquer espetáculo: eles só poderiam cobrar de espetáculos que comprovadamente fizessem uso das obras de autores representados por eles, nao de qualquer espetáculo, para depois dividir o dinheiro só entre os representados, isso é roubo.

Existem muitas outras.... o debate está interessante...

quarta-feira, 9 de março de 2011

Defendendo a Ministra da Cultura

Sílvio Tendler, cineasta brasileiro, coloca-se no campo das divergências frente às políticas do MinC para defender a ministra e pedir a todos que lhe dê um tempo para acertar a casa. Vamos à leitura.

Do Luis Nassif

Silvio Tendler: Um tempo para Ana de Hollanda
8 de Março de 2011 – 7h39

Sílvio Tendler: Feios ataques a Ana de Hollanda

via Vermelho

Há muito tempo não vejo nada tão feio e tão absurdo quanto os ataques que vem sendo feitos a Ana de Hollanda, logo no início de sua gestão. Ela precisa de um tempo para respirar, para organizar o Ministério, para dizer a que veio antes de ser alvo de críticas desqualificadas. Chamá-la de autista, como o fez um (ex?)amigo? Inadmissível. A política não vale isso, não.

Por Silvio Tendler*

A questão dos direitos de autor é bem mas complexa do que vem sendo apresentada. Geralmente somos contra quando temos que pagar, favoráveis quando temos que receber. Alguém aí topa trabalhar como um mouro na pesquisa de um filme, na recuperação de arquivos, na construção da obra e de repente vem um canal qualquer e usa na mão grande? Pois é, tem que haver lei que nos proteja.

Os músicos dizem a mesma coisa. Esta questão de produzir conteúdo gratuito para as teles é o cerne da questão e é uma discussão muito antiga.

A lei dos direitos autorais exige revisão, não há duvida. Mas deve ser desfeito o imbroglio existente, que não regulamenta alguns direitos ignorados na atual lei, entretanto necessários por sua razão social e/ou cultural. É o exemplo do direito de citação de uma obra (ele existe na atual lei do direito autoral mas todos temem utilizar porque seus limites não ficam muito claros) por suas razões culturais.

Há questões de significativa relevãncia. A liberdade de difusão de filmes em cineclubes, universidades e atividades culturais e pedagógicas afins. As cobranças exorbitantes de festivais, encontros, simpósios, por parte do ECAD — que sacrifica a cultura e não favorece os artistas. A conciliação entre os direitos culturais, que deve ser compatível com os direitos in alienáveis de um autor viver de seu trabalho. Já conversei com o Fernando Brant a respeito e tem acordo.

Os Pontos de Cultura (PCs) são sem sombra de dúvida a ação mais importante que aconteceu em termos de política cultural nesses últimos anos. Alguma pendência de gestão deixou uma conta pendurada para a administração que ora se inicia. Entre o saldo devedor que a ministra Ana recebeu de brinde junto com o Ministério (algo em torno da bagatela de 600 milhões de reais!!!) e a indispensável preservação dos PCs, existe um ajuste necessário.

A propria SAv (Secretaria do Audiovisual) pede um ajuste e uma normatização de despesas para combater a opacidade da tal da transparência republicana, cantada em verso e prosa por gestores que recorriam a ONGs para ordenar despesas e que fugiam ao controle do conhecimento público. Espera-se mais de República na ação da secretária Ana Paula e menos nebulosidade na transparência de sua gestão que ora se inicia.

*Cineasta, Documentarista, diretor de Utopia e Barbárie, Jango, Anos JK, entre outras obras
 Fonte: http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_secao=11&id_noticia=149079


terça-feira, 8 de março de 2011

Revisão na Proposta

No meio do carnaval, a ministra da cultura anuncia revisão das propostas à Lei do Direito Autoral. Diz ela ser importante pois "muita gente não conhece as propostas". Pois é..... não participa e depois diz que não conhece. Essa tática de atrasar o debate é antiga, não é mesmo? Abaixo o Nassif posta duas fontes distintas para a mesma notícia, para compararmos os detalhes.

Do Luis Nassif

Ministra quer consenso em projeto de direitos autorais

06 de março de 2011 | 22h 38
LUCIANA NUNES LEAL - Agência Estado

Ao chegar ao sambódromo do Rio para assistir ao primeiro dia de desfiles do grupo especial das escolas de samba, a ministra da Cultura, Ana de Hollanda, disse que sua equipe vai trabalhar em um novo projeto de lei sobre direitos autorais que chegue ao Congresso "com um mínimo de consenso". Desde que assumiu, a ministra está no centro de uma discussão sobre a manutenção do rigor na cobrança de direitos autorais ou a adoção de regras mais flexíveis, como defende o ex-ministro Gilberto Gil.
 
Disse que a proposta elaborada durante o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não é conhecida e por isso foi devolvida pela Casa Civil para o Ministério da Cultura. "A equipe vai ler a lei ainda em vigor, vai ler esse projeto de lei que ninguém conhece e vai ouvir todas as demandas que existem em relação a direitos autorais. Não posso endossar uma proposta que ninguém conhece. O trabalho tem de ser terminado, tem muito questionamento sobre o assunto. Não vou endossar uma proposta sem que haja um mínimo de consenso", disse a ministra.
Ela também comentou a escolha do cientista político Wanderley Guilherme dos Santos para presidir a Casa de Rui Barbosa, em substituição ao sociólogo Emir Sader, que perdeu o cargo antes mesmo de assumi-lo depois de chamar a ministra de "meio autista". Ana elogiou o futuro presidente da Casa e disse que fará com Wanderley uma visita à Casa de Rui Barbosa na próxima quinta-feira.

A ministra assistirá aos desfiles hoje no camarote do prefeito do Rio, Eduardo Paes.            

Ministra garante revisão da lei de direitos autorais

AGêNCIA BRASIL 07/03/2011 21h30

A ministra da Cultura, Ana de Hollanda, disse no domingo, ao chegar ao Sambódromo no Rio de Janeiro, que o projeto de reforma da lei de direitos autorais será retomado nos próximos dias.

"Esse caso todo vai ser estudado agora que a pessoa está assumindo. Deixa ela assumir, a questão não está esgotada", afirmou Ana de Hollanda, em referência à advogada Márcia Barbosa, que será nomeada para a Diretoria de Direitos Intelectuais.

Segundo a ministra, Márcia vai chefiar uma equipe encarregada de fazer uma revisão da proposta. "Vão ver a lei em vigor e essa lei proposta, que ninguém conhece, e ouvir as demandas todas que existem", disse.

Ana de Hollanda explicou que mesmo depois das audiências públicas para discutir o projeto de reforma, a "insatisfação estava muito grande". "Assisti a queixas da categoria musical que não se via contemplada", declarou. A ministra também comentou as críticas de blocos de Carnaval de rua do Rio, que reclamaram das taxas pagas ao Escritório de Arrecadação e Distribuição (Ecad) - responsável por cobrar pela exibição pública de músicas -, mas afirmou que não pode intervir. "Isso é com eles", declarou.

A discussão sobre o pagamento de taxas para instituições como o Ecad era um dos temas do projeto de lei sobre direito autorais, parado na Casa Civil.

Antes de entrar no camarote da prefeitura, a ministra também comentou a nomeação do cientista político Wanderley Guilherme dos Santos para a Fundação Casa de Ruy Barbosa, depois que o ministério desistiu da escolha do sociólogo Emir Sader.

"Ele Wanderley Guilherme é uma pessoa com todos os predicados", concluiu, informando que deve fazer uma visita à fundação na próxima quinta-feira.


Quem tem ou Está com Medo???

Dois artigos, um deles bastante longo mas interessante, mostram as divergências sobre a atuação do Ministério da Cultura. Sobre eles creio ser importante lê-los mais vezes, principalmente o segundo que a princípio está bem construído mas comete uma falha preconceituosa quando qualifica os que querem "voltar" ao antigo modelo de gestão da cultura como "...os que tem mais de 50 anos....". No mais, vamos lê-los várias vezes e opinar...Links enviados por Marcos Pardim.


QUEM TEM MEDO DE ANA DE HOLANDA?
por Leonardo Brant

A ministra da Cultura anunciou hoje o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos como novo presidente da Fundação Casa de Rui Barbosa. Com isso, espera estancar mais uma polêmica envolvendo a recuperação do Ministério da Cultura, em constante ameaça por grupos de interesse que ali se instalaram durante a gestão de Juca Ferreira.

No último domingo (27/2), durante conversa telefônica, a ministra Ana de Hollanda pediu que o sociólogo Emir Sader se retratasse sobre entrevista dada ao jornal Folha de S. Paulo, em que a chamou de “meio autista”. Sader disse que a frase havia sido publicada fora de contexto. E publicou um artigo em resposta à matéria do jornal (clique aqui para ler).

Na terça (1/3), a Folha publicou o áudio da entrevista na internet. Na quarta (2/3), Ana de Hollanda informou que Sader não assumiria mais o cargo ao qual havia sido indicado. A decisão de não nomear o sociólogo foi sacramentada durante reunião da presidente Dilma Rousseff com outros integrantes da cúpula do governo.

O jornal Folha de S.Paulo informa que a ação causou saia justa no PT. Sader articulou, durante o segundo turno das eleições, o encontro que deu origem ao abaixo-assinado de artistas e intelectuais a favor de Dilma Rousseff. Além disso, é ligado a Gilberto Carvalho, secretário-geral da Presidência, e a Marco Aurélio Garcia, assessor para assuntos internacionais da Presidência.

A posição crítica de Sader, de acordo com funcionários e ex-funcionários do MinC, seria também de parte do PT, que está descontente com os rumos da pasta. Não consegui detectar o tal “racha” anunciado pela Folha, mas sim vozes dissonantes, porém desarticuladas.

Um pequeno grupo de ativistas ligados à cultura digital vem fazendo oposição ostensiva à ministra Ana de Hollanda, desde que foi anunciada no cargo. A tentativa é associar a ministra ao ECAD, o que representaria ameaça ao discurso e aos interesses políticos do ex-ministro Juca Ferreira. Não por acaso este mesmo grupo saiu a campo em defesa de um injustificável e implausível #ficajuca (a campanha pela permanência do cargo comandada pelo gabinete do ex-ministro teria custado cerca de R$ 500 milhões aos cofres públicos).

Embora pouco numeroso, o grupo é barulhento e tem boa penetração nas velhas e novas mídias. Tenta aquecer e turbinar um processo de desestabilização do novo MinC, com um volume de exposição negativa da nova ministra nas redes sociais, disseminando boatos e aquecendo factóides. Anna de Holanda contribuiu muito, dando alguns troféus para o grupo, como a retirada do selo Creative Commons do site do MinC. Embora o ato seja compreensível, não poderia ter sido feito em pior momento. O estopim desse processo, que rendeu uma tentativa frustrada de criar um coro em torno de um #foraannadeholanda foi a mudança na Diretoria de Direitos Intelectuais, coincidindo com as declarações proferidas por Emir Sader.

A estabilidade política do novo MinC está muito ligada à sua capacidade de resolução das pendências financeiras deixadas pela adminstração anterior. Em recente reunião com os pontos de cultura, foi feito um acordo de regularização gradativa dos débitos e o empenho para a resolução de problemas com inadimplência e débitos de 2010. Os débitos anteriores são mais complicados, pois exige gestão em outras instâncias do governo.

Mas como uma pendência do governo anterior (que só empurrou com a barriga os problemas dos Pontos de Cultura) pode afetar a credibilidade de Anna de Holanda? A resposta encontra-se nessa mesma central de boatos, que espalhou para as redes e listas de e-mail que a nova ministra teria a intenção de acabar com os Pontos de Cultura. Nem mesmo a indicação de uma gestora de reconhecida capacidade, como é o caso na nova secretária Marta Porto, e sua equipe formada por pessoas como Cesar Piva, que ajudaram a construir o programa Cultura Viva de dentro, conseguiram afastar os efeitos da tempestade que inundou o MinC.

Mas o MinC de Anna de Holanda não vive apenas de mau tempo. A criação da Secretaria de Economia Criativa, ocupada por Claudia Leitão, tem gerado repercussões positivas e se transformou na principal agenda propositiva do MinC nesses dois primeiros meses de atuação.

Aguardamos com apreensão os próximos capítulos dessa novela, que impede o foco nos problemas reais das políticas culturais, quase todos relacionados a financiamento e gestão.


DE QUE ANA DE HOLANDA TEM MEDO?
por Bruno Cava

Na última semana, extravasou na grande imprensa a controvérsia que vem marcando os dois primeiros meses de ministério da cultura sob direção de Ana de Hollanda. Desde janeiro, intenso debate circula nas redes sociais, porém, só com o afastamento de Emir Sader pela ministra, intelectual antes cotado para assumir a Fundação Rui Barbosa, os conflitos receberam maior destaque. Agora, muitos começam a informar-se sobre o que pode ser a primeira crise mais séria do governo Dilma.

O dissenso foi provocado pela ação de militantes, comunicadores, pesquisadores, produtores, ponteiros e cidadãos, dentro e fora da internet, partidarizados ou não, que fizeram ou não a campanha de Dilma. É um movimento heterogêneo, difícil de classificar. Começou brando mas vem crescendo à medida que as avaliações iniciais sobre a nova política cultural se confirmam, diante das medidas concretas tomadas pelo ministério. Como primeira vitória, temas relacionados ao novo MinC foram resgatados dos suplementos “mercado” ou “dinheiro”, da grande imprensa, onde estavam sendo abordados, de volta aos cadernos culturais ou políticos.

Pode parecer uma controvérsia menor, levando em conta o orçamento do ministério da Cultura, em relação a outras áreas do governo. Seriam alguns tostões (0,12% da despesa federal) comparados às fábulas despendidas pelos ministérios da previdência, da saúde, da defesa, da educação.

Mas seria interpretar o problema numa métrica falha: o valor de uma cultura não se afere quantitativa, mas qualitativamente. Com ainda mais razão, nas últimas décadas, com a mutação das forças produtivas. Autores chamam-na de virada para uma sociedade pós-industrial, pós-moderna, pós-fordista, da informação e conhecimento.

Como quer que seja batizado, emergiram novas formas produtivas, numa espécie de revolução pós-industrial, em que o imaterial passou a comandar a geração de valor. Isto não significou o abandono da produção industrial, mas a sua reconfiguração num novo paradigma. Da mesma forma que a mutação do trabalho no século 19 industrializou a agricultura, sem porém substitui-la, hoje ocorre um processo de pós-industrialização da produção industrial.

Com isso, a cultura, como criadora e propagadora de valores intangíveis, se torna imediatamente produtiva. Na nova economia, a cultura e o conhecimento movem e qualificam a cadeia produtiva. Por isso, a cultura não pode mais ser tratada como acessório ou departamento, como numa divisão fabril. Ela passa a atuar de modo transversal a todos os ministérios, qualificando direta e indiretamente todas as políticas públicas (como o meio-ambiente). Não há mais economia da cultura, a economia é cultura.

Por mais que defensores da atual gestão desqualifiquem o movimento que lhe contesta, — como se não passasse de uma revide paroquial de grupos alijados, tentando recuperar aparelhos e cargos; — na realidade, o que está em jogo são duas concepções de cultura profundamente diferentes e irreconciliáveis. Trata-se de um corte conceitual, por assim dizer, entre a cultura como mundo e o mundinho da cultura.

No governo Lula, o núcleo das políticas do MinC consistiu no complexo da Cultura Viva, sobretudo os Pontos de Cultura. Além do assistencialismo, os Pontos vem exprimindo uma nova forma de produzir e afirmar-se, uma forma autônoma. Foi a formulação mais feliz, enquanto técnica de governo, de um movimento imanente à sociedade.

Com os Pontos, o estado não está simplesmente doando a fundo perdido. Reconhece a dimensão produtiva da juventude, dos pobres, das periferias e dos rincões, das minorias negras, quilombolas, indígenas. O estado reconhece que eles têm uma força própria, uma potência de vida, que não precisam ser incluídos na economia apenas como consumidores. E então investe, fornecendo condições materiais para que cada nó da rede se autovalorize e crie, ele mesmo, os conteúdos de sua cultura, — no ato mesmo em que os dissemina, miscigena e remixa com o restante da teia.

Longe de induzir dependência (viciar o pobre na mamata), trata-se de um investimento com custo relativamente baixo, mas que colhe imensuráveis dividendos à sociedade. Se existem passivos, e por óbvio toda política deve ser permanentemente aperfeiçoada, do outro lado desponta um imenso ativo: o empoderamento do cidadão como produtor de seu mundo, um campo produtivo liberto de subordinação e partilhado em rede. Todo o conjunto funciona num ciclo virtuoso de cultura, política e economia.

Não à toa, no governo Lula, os Pontos de Cultura contemplaram cerca de 8,4 milhões de pessoas, e o sociólogo Giuseppe Cocco, da UFRJ, considere-o essencialmente complementar ao programa Bolsa Família. Assim o cidadão não só tem acesso à renda, como também condições de produzir valores. Se o governo Dilma for esperto, colocará os Pontos no mesmo patamar do Bolsa Família: imune a cortes, prioridade de expansão, coordenado com outras políticas sociais.

Vale destacar que essas configurações produtivas não foram simples efeito das políticas do MinC. O ministério não as produziu. Elas aconteciam. A sociedade global se reorganiza no sentido de adaptar-se às novas liberdades das redes. A disseminação generalizada de conhecimento e cultura é uma realidade incontornável e irreprimível, do mesmo modo que a forma de militância que lhe corresponde. Uma militância em enxame, simultaneamente política, cultural e social, como a que vem realizando a primeira Revolução 2.0, na Tunísia e no Egito.

Portanto, foram as lutas dos trabalhadores precarizados, de todos os excluídos por décadas de neoliberalismo, que abriram uma brecha para esse modo criativo de viver cultura. O MinC com Gilberto Gil e Juca Ferreira somente aceitou essas mudanças, não as tentou bloquear ou criminalizar, e se deixou ocupar e ser formulado por um movimento multitudinário e enxameante.

Daí a conquista dos Pontos de Cultura e a afirmação dos novos direitos desse mundão 2.0, cujos slogans são compartilhamento e vibração em rede. O social não está matando a cultura; devoram-se amorosamente um ao outro.

O que acontece quando Ana de Hollanda e sua equipe de formuladores (os policymakers) assumem o ministério? Uma reviravolta. Tudo o que, em alguma medida, remete às novas liberdades, aos novos modos de produzir, à pós-industrialização, tudo isso se torna obscuro e ameaçador, ou então ingênuo e populista.

Daí a esconjuração, açodada e sem consulta, do Creative Commons (CC). Logo na primeira canetada, até hoje sem qualquer explicação razoável pelos novos gestores. Eles sequer demonstram saber do que se trata, senão talvez como uma vaga associação do CC a essas “obscuras mudanças”. Afinal, CC e copyleft são as principais alternativas ao sistema cerrado de propriedade imaterial, o copyright; conquanto, a bem da verdade, nada haja de revolucionário nessas licenças mais flexíveis por si mesmas.

Daí também o temor quanto à reforma da Lei dos Direitos Autorais brasileira, uma das mais draconianas do mundo, que segrega do domínio público as obras, e por até 70 anos depois da morte do autor. O projeto tem sido profunda e extensivamente discutido desde a sua formulação no governo Lula, com 80 encontros nacionais, 7 seminários e uma consulta pública que colheu mais de 8.000 sugestões. Desconheço projeto de lei tão minudenciado, inclusive em sites como htttp://www.reformadireitoautoral.org ou http://www.cultura.gov.br/consultadireitoautoral

A quem não interessa a transformação, tão potencializada pelo governo Lula?

Primeiro, às grandes corporações que exploram a cultura. Às indústrias culturais que ainda apostam no modelo antigo e excludente. Quem mais lucra com propriedade imaterial não é o autor, mas os atravessadores: gravadoras e editoras. Indo só um pouquinho além do autor, logo ali em frente, percebe-se que a cultura não se faz só no momento da autoria. O ministério não é do Artista, mas da cultura.

Há toda uma cauda longa (99%?) de técnicos, roteiristas, produtores culturais, seguranças, faxineiros, promoters, designers, críticos, blogueiros, jovens músicos, maquiadores que não recebem um tostão em propriedade autoral. Ainda menos no século 21, em que o processo sobreleva ao produto em si. Hoje a renda vem muito mais da circulação, do marketing, da constituição dos públicos, da interatividade, da abertura para o remix; do que das tradicionais obras magnas, — aquelas gravadas no bronze da eternidade.

Para a indústria, não interessa remunerar essa massa de precários com Pontos de Cultura, editais democráticos, ação Griô etc. Os trabalhadores culturais precários, quando simplesmente não desistem dessa carreira, vêem-se na contingência de vender barato sua criatividade, assim como o artista jovem (na verdade quase todos) os seus “direitos autorais”.

Sem ter pra onde correr, essa lógica de mercado mata dois coelhos de uma vez: 1) suprime a autonomia do produtor, obrigado a se subordinar aos patrões empresários, e 2) obriga-o a viver de bicos e contratos temporários, incapaz de negociar melhores condições.

Isso explica o porquê da centralidade da “criação” e do “criador” nos discursos da ministra e seus apoiadores. A indústria, com sua divisão social piramidal, é a melhor forma de valorizar o criador, o Artista, que fica no topo ,— o rei-filósofo no comando da cidade da cultura. Esses medalhões, a maioria com mais de 50, não formam uma classe (“classe artística)”. No máximo, uma corporação inadaptada e paranóica com os novos modos de produzir, organizada para tentar salvar os seus benefícios.

Por muito tempo a cultura brasileira se pautou pelo predomínio da “classe artística”. Os holofotes da grande mídia contornavam sistematicamente a criatividade imanente do país, as produções de periferia e interior, dos pobres. Não foi o MinC que derrubou o negócio. Mas a sociedade. O MinC com Lula e Gil e Juca veio democraticamente a reboque, e potencializou esse movimento.

Antes, essa produção era tratada como folclore, num regionalismo condescendente, ou então como mística do povo — e não como o coração e o sangue da criação do universo. Algo que somente artistas pensantes, como Gláuber, Oiticica ou Gilberto Gil, enxergavam já na década de 1960. Eis mais um dos motivos que a sociedade inventou e desenvolveu as mídias livres, ou que artistas mais seminais se deixaram invadir pela potência da multidão. Para se autovalorizar, pois a grande imprensa e indústria não davam valor.

Na cultura como mundo, os medalhões vêem ameaçado o seu status superdimensionado, por vezes narcísico. Essa superexposição de uns poucos é promovida pela indústria para codificá-los e valorizá-los como marca. E então extrair daí seu lucro, através da transmissão da imagem e do copyright. Claro, muitos sempre tiveram qualidade (quem vai dizer que Chico Buarque ou Caetano não sejam brilhantes?), mas quantos aí não foram golpes de marketing? Quantos filhos ou irmãs de celebridades não hauriram essa marca, por tabela?

O discurso pró-Ana de Hollanda retoma a mesma acusação de amadorismo, antes imputada ao “povão”. Os Pontos de Cultura são ingênuos e demagógicos, funcionam num clima “meio estudantil” e não trazem resultados concretos. O mesmo tom de Hosni Mubarak, o ditador egípcio, quando a confrontado com a revolução 2.0. O mesmo tom de Luiz Carlos Barreto ou Cacá Diegues, que agora pretendem “acertar as contas” com os arranjos produtivos que os contornam (contornar a Globo Filmes, por exemplo). No fundo, eles pedem, e esperam que Ana de Hollanda conceda: não dêem o dinheiro pra esses moleques e merdinhas, dêem para nós… nós que somos os profissionais!

Quanta falta de generosidade… quanto preconceito em não crer na qualidade das pessoas!

Aí se explica, também, o discurso cultura-e-mercado, que desde FHC (cujo MinC tinha por slogan “A cultura é um bom negócio”) não predominava de modo tão acintoso. Novamente, para desmerecer a produção em rede: insustentável.

Sustentável seria a indústria tradicional, articulada com a exploração da propriedade imaterial. Como se esta não dependesse historicamente de isenções, subsídios, “verbas de emergência”, repasses diretos. Aqui, mercado ou estado atuam como unha-e-carne, planejando os investimentos. Por isso, seria tão central passar a investir em “indústrias criativas”, — um nome engenhoso para o projeto de enquadrar cabalmente a cultura ao mercado. Ou seja, à subordinação da produção cultural às corporações, ao emprego formal, ao copyright, à gestão centralizada dos recursos.

No ano passado no Rio de Janeiro, a aplicação das teorias da economia criativa, — uma cria, aliás, do governo neoliberal de Tony Blair na Inglaterra, — não fez mais do que concentrar os investimentos públicos (R$ 270 milhões) em mega-museus. Que serão explorados por quem? Pela Fundação Roberto Marinho.

Por enquanto, a ministra vai promovendo a “economia criativa” por onde passa, enquanto faz promessas à rede da Cultura Viva, que tudo vai continuar como antes, normalizado. A discussão da LDA? Perguntada, não é papel de ministra opinar, mas de uma comissão de especialistas jurídicos, que vai reapreciá-la. Novamente o discurso técnico, como se o regime de propriedade, material ou não, não fosse questão das mais políticas.

Enquanto isso, a secretária Marta Porto, que nem foi nomeada, correu o Brasil para abrir o diálogo com a rede de Pontões e Pontos de Cultura. O MinC está em dívida com a rede, com pagamentos atrasados na ordem dos R$ 60 milhões. As boas intenções são irrefutáveis, mas faltaram informações palpáveis de prazos, metas e o planejamento para a expansão prometida da Cultura Viva.

Basicamente, a questão colocada pela secretária foi a disjunção exclusiva: qualificar ou expandir? Isto é, arrumar a casa (numa crítica implícita à gestão anterior) ou crescer a rede? Para Ivana Bentes, diretora da ECO/UFRJ, é preciso qualificar e expandir, numa disjunção inclusiva. E quem deve qualificar o MinC são os Pontos, com sua experiência adquirida de democracia e produtividade, e não o inverso, uma gestão que começou agora.

É no mínimo sintomático como a Aliança Internacional de Propriedade Intelectual (IIPA) — tão querida pelas mega-gravadoras, pelas majors do cinema e pela Microsoft passou a ver com bons olhos o governo brasileiro, quando, no governo Lula, estava na “lista negra”. Quase ao mesmo tempo, no Fórum Social Mundial, em Dacar, os movimentos elaboraram e encaminharam uma carta à ministra, no sentido oposto, preocupado com possíveis retrocessos.

Por tudo isso, a luta não é por nomes ou números, mas por uma concepção global de política, cultura e sociedade. Por um projeto de democracia. O ministério da cultura exerceu papel ímpar no governo Lula, como vanguarda propositiva e qualificador das políticas públicas. Ainda foi pouco, e é preciso consolidar e ampliar as redes, mesmo que seja apesar, quiçá contra o novo governo.

Está ficando claro que isso dependerá muito mais da articulação e do movimento dos atores culturais, que continuarão produzindo na precariedade, e já mostraram não ser vacas de presépio, do que dessa gestão. O MinC voltou a ser estado.
 

segunda-feira, 7 de março de 2011

Ano Após Ano o Carnaval Baiano Mostra Suas Facetas

Estarrecedora a postura dos promotores do carnaval baiano. Posição difícil e corajosa do vice-prefeito da cidade de Salvador que foi afrontado pelo capital dos grandes blocos por exigir água àqueles que trabalham para eles. Leia e se surpreenda....

Do Luis Nassif

Por Patricia R
Coloco aqui texto retirado do blog da Maria Fro, é reportagem do Terra Magazine. Segue o link e o texto. Mostra um lado nada agradável do que se tornou o carnaval no Brasil.
http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI4199139-EI6578,00-Vice+de+Salvador+ataca+exploracao+de+cordeiros+no+Carnaval.html


Vice de Salvador ataca exploração de cordeiros no CarnavalTerça, 12 de janeiro de 2010, 21h38 Querem o dinheiro da ... 
Ex-prefeito e atual vice de Salvador, Edvaldo Brito ataca ganância dos donos de grandes blocos carnavalescos em Salvador: "Querem o dinheiro da Prefeitura, querem tudo o que você possa imaginar"11 de janeiro de 2010Secom/Divulgação

Claudio Leal


Baba Egbé do Terreiro do Gantois, uma espécie de protetor da comunidade do Candomblé, o vice-prefeito de Salvador, Edvaldo Brito (PTB), precisará de auxílio dos ancestrais para impor mudanças nas relações de trabalho no carnaval baiano. Em especial, no cabresto dos cordeiros, os subempregados da indústria carnavalesca que cuidam das cordas de segurança nos desfiles dos blocos (a etnia predominante é a negra).

Divulgado na semana passada, o novo estatuto das festas populares determina que os cordeiros devem ganhar três litros de água, protetores solar e auricular, sapatos antiderrapantes e camisa de algodão. Para superar as condições precárias dentro dos blocos, houve a participação do Ministério Público do Trabalho, mas, ainda assim, os empresários reagiram às medidas humanitárias da Prefeitura.

- Eu vi reagir o chamado presidente do Conselho Municipal do Carnaval. E, considerando ser alguém vinculado a um bloco do carnaval, é evidente que não tem isenção para ser presidente de um órgão que congrega diversos segmentos - diz o vice-prefeito, Edvaldo Brito, responsável pela coordenação da folia baiana, em entrevista a Terra Magazine.

Entre outras medidas, a Prefeitura obriga os blocos a pagarem também pela exposição de patrocinadores. Em conversa com o jornal baiano Correio, o dublê de presidente da Associação de Blocos de Trio de Carnaval de Salvador (ABT) e do Conselho Municipal do Carnaval, Fernando Boulhosa, afirmou: "Vamos ingressar na Justiça para cancelar as regras, pois elas foram divulgadas a 35 dias do Carnaval. Nós não fomos consultados e nem temos condições de arcar com os custos para equipar os cordeiros com tantos itens".

Numa festa milionária, os cordeiros chegam a receber pela diária menos de R$ 10. A concentração para a escolha dos braços negros, em frente ao Farol da Barra, chega a lembrar os procedimentos dos mercados de escravos, séculos atrás. Edvaldo Brito responde ao choro financeiro dos empresários:

- O vice-prefeito de Salvador está propondo oferecer três litros d'água aos cordeiros, proteger os ouvidos dos cordeiros, a integridade dos cordeiros... E eles declaram, safadamente, que não têm dinheiro.


"Gigi, eu chego lá" - "O 1o voo do Chiclete Voador" (sic!) destacado por jornal baiano: Chiclete com Banana investiu R$ 17 milhões em jatinho


No dia 8 de janeiro, o jornal A Tarde estampou louvaminheira metade de primeira página para informar aos leitores "chicleteiros", em foto sinérgica: a banda Chiclete com Banana (Bell Marques à frente) realizara o "voo inaugural" de um avião particular avaliado em R$ 17 milhões. Edvaldo Brito não citou diretamente o esbajamento do jet set, mas critica os plutocratas da música baiana:

- Estão trocando a dignidade por dinheiro, pra ficarem mais ricas, terem mais condições de comprar seus bens materiais com valores estratosféricos.

Ele denuncia a ganância privatista do setor carnavalesco:

- Querem o dinheiro da Prefeitura, querem tudo o que você possa imaginar desde que privatizem mais, mais, mais e mais o Carnaval da Bahia, sob o sacrifício da dignidade da pessoa humana.

Nos últimos meses, Brito tem sido mais atuante do que o próprio prefeito de Salvador, João Henrique Carneiro (PMDB), apontado pelo Datafolha como o pior administrador entre as capitais brasileiras. Há articulações para Carneiro abandonar o cargo no mês de abril. O alcaide tenta se aproximar do governador Jaques Wagner (PT), apesar de ser liderado do ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima. Prefeito da cidade em 1978 e 1979, o atual vice desfaz a especulação de que poderá assumir o cargo este ano.

Leia a entrevista.

Terra Magazine - Como o senhor vê as críticas dos donos de blocos de Carnaval ao estatuto que os obriga a dar coisas básicas aos cordeiros, como água e protetor solar?
Edvaldo Brito - Você colocou duas premissas. Blocos de carnaval, não. Eu diria que alguns reagiram, não todos. Eu vi reagir o chamado presidente do Conselho Municipal do Carnaval. E, considerando ser alguém vinculado a um bloco do carnaval, é evidente que não tem isenção para ser presidente de um órgão que congrega diversos segmentos. Perde a legitimidade quando fala a favor ou contra a medida.

Se refere a Fernando Bulhosa (ligado ao bloco Internacionais)?
Esse senhor. Em segundo lugar, vale a pena repetir sua expressão: as coisas básicas estão na Declaração dos Direitos do Homem, estabelecendo os princípios da dignidade da pessoa humana. A primeira a colocar isso foi a Constituição Alemã, exatamente depois da Segunda Guerra Mundial. Não se pode brincar com a dignidade da pessoa humana. Tudo isso que estou lhe dizendo é pra falar que os cordeiros, em favor dos quais a Prefeitura de Salvador veio agora, são portanto titulares da dignidade da pessoa humana. E aí essas pessoas estão reclamando. Poucas pessoas, pois vários segmentos aplaudiram... Essas pessoas estão trocando a dignidade por dinheiro, pra ficarem mais ricas, terem mais condições de comprar seus bens materiais com valores estratosféricos. O vice-prefeito de Salvador está propondo oferecer três litros d'água aos cordeiros, proteger os ouvidos dos cordeiros, a integridade dos cordeiros... E eles declaram, safadamente, que não têm dinheiro.

Querem o dinheiro da Prefeitura?
Querem o dinheiro da Prefeitura, querem tudo o que você possa imaginar desde que privatizem mais, mais, mais e mais o Carnaval da Bahia, sob o sacrifício da dignidade da pessoa humana.

O senhor disse que somente uma pessoa, o presidente da entidade dos blocos do canaval, se pronunciou contra a medida da Prefeitura. Mas a verdade é que se trata de uma prática tão forte que até hoje os empresários submetem os cordeiros a esse tipo de regime de trabalho.
Com certeza. Estou aqui na minha fente com a enquete promovida por um site, indagando o que as pessoas acham das medidas do Estatuto. Até as 15h e 24 minutos, 53,8% das pessoas achavam ótimo. Mas alguns acham que vai prejudicar muita gente.

Como vai ser feita a fiscalização?
Será feita por diversos órgãos integrados: Polícia Militar, Civil, Defesa Sanitária, órgãos de combate à violência... Será um batalhão de fiscalização.

Há uma questão racial no tratamento dado aos cordeiros?
Não diria que é uma questão racial, mas é um desrespeito à igualdade racial. Não no sentido de segregar, mas da igualdade. Se mais de 90% dos cordeiros são negros, precisamos ter a ideia logo de saída de que é um desrespeito à igualdade racial. Você pode imaginar o que é o dia de pagar esse dinheiro?

Filas enormes, sob o sol...
Mulheres grávidas, menores que pelo Estatuto da Criança e do Adolescente não podem trabalhar... O menor de 18 anos só pode trabalhar como estagiário. Como é que ele já vai puxar cordas? Essas regras valem para quê? Um grande escritor político do século XX, Norberto Bobbio, escreveu um livro chamado "A Era dos Direitos". Ele diz que todos nós temos direitos inscritos nos documentos normativos, mas faltam órgãos públicos para aplicar esses direitos. Não renego minha origem. Sou filho de uma lavadeira de roupas com um pedreiro. O povo vem e me dá 800 mil votos, me dá essa cadeira, me dá uma caneta para legitimar o exercício do poder. Não me abato com nada disso.

Por que o vice-prefeito tomou a frente disso e não o prefeito João Henrique? 
Ele me delegou. Existe um artigo da Lei Orgânica, o artigo 52, que estabelece que o prefeito pode me convocar para algumas tarefas especiais. Na quinta-feira "de cinzas", posterior ao carnaval de 2009, o prefeito deu um café da manhã para apurar como foi o carnaval. Neste momento, ele olhou para mim e deu a coordenação do carnaval de 2010, assim como me deu a revitalização do Pelourinho (no centro histórico de Salvador) e a reforma administrativa. Enfim, foi por isso. Significa que ele está de corpo e alma.

O que se comenta é que o senhor o sucederá em breve, na Prefeitura. Por isso tomou a frente? O prefeito vai se licenciar em abril?
(gargalhadas) Meu sorriso já mostra que eu não acredito em nada disso. Eu acho que isso não tem procedência. Você está me entrevistando lindamente e eu estou lhe respondendo lindamente.

Em relação aos cordeiros, numa análise mais sociológica, como o senhor avalia essas práticas da elite baiana?
Não quero generalizar em termos de elite. Prefiro dizer: capitalismo à baiana. Uma determinada faixa capitalista da Bahia, voltada para a exploração da cultura baiana e da fonte da cultura, o negro, essa sim, no plano sociológico e histórico, não se compadece.

Entra naquilo que disse Joaquim Nabuco? De que a escravidão permaneceria como uma característica nacional? 
Uma pessoa, o vereador Alcindo Anunciação, exatamente no dia de hoje, falou de quando os negros puxavam os navios negreiros com as cordas. Ele vê uma reedição com os cordeiros puxando a corda no carnaval. Você pode dizer que eu assino embaixo disso. Cada vez que vejo essa cena, me lembro da miséria do meu povo, me lembro da minha avó, que para poder sobreviver dependeu da minha ajuda. E me lembro de mim mesmo, tomando café com farinha. Digo isso sem nenhum complexo de inferioridade. Porque um filho de lavadeira que chegou aonde chegou não pode ter complexo de inferioridade, mas somente a gratidão a Deus, Nosso Senhor.

Terra Magazine

Preconceito Racial nas Raízes do Brasil

Excelente artigo de Mino Carta na Carta Capital mostra o quanto ainda estamos longe de fazer valer a frase que diz vivermos em uma sociedade multirracial sem preconceitos.

Da Carta Capital


Três séculos de escravidão vincam até hoje os comportamentos da sociedade brasileira

Escrevi certa vez que se Ronaldo, o Fenômeno, se postasse na calada da noite em certas esquinas de São Paulo ou do Rio, e de improviso passasse a Ronda, seria imediata e sumariamente carregado para o xilindró mais próximo. Digo, o mesmo Ronaldo que foi ídolo do Brasil canarinho quando adentrava ao gramado. Até Pelé, creio eu, nas mesmas circunstâncias enfrentaria maus bocados, embora se trate de “um negro de alma branca”.

Aí está: o protótipo do preto brasileiro, o modelo-padrão, está habilitado a representar e orgulhar o Brasil ao lidar com a redonda ou ao compor música (popular, esclareça-se logo), mas em um beco escuro­ será encarado como ameaça potencial. Muitos, dezenas de milhões, acreditam em uma lorota imposta pela retórica oficial: entre nós não há preconceito de raça e cor. Pero que lo hay, lo hay. Existem provas abundantes a respeito e a reportagem de capa desta edição traz mais uma, atualíssima. Na origem, obviamente, a escravidão, mal maior da história do Brasil.

Há outros, está claro. A colonização predatória, uma independência sequer percebida pelo povo de então, uma república decidida pelos generais, avanços respeitáveis enodoados por chegarem pela via da ditadura de Vargas. E o golpe de 1964, último capítulo do enredo populista comandado por uma elite que, como diz Raymundo Faoro, quer um país de 20 milhões de habitantes e uma democracia sem povo. Enfim, um esboço de democratização pós-ditadores fardados ainda em andamento.

A desgraça mais imponente são, porém, três séculos de escravidão e suas consequências. A herança da trágica dicotomia, casa-grande e senzala, continua a determinar a situação do País, dolorosamente marcada pela desigualdade. Há quem pretenda que o preconceito à brasileira não é racial, é social, mas no nosso caso os qualificativos são sinônimos: o miserável nativo não é branco.

A escravidão vincou profundamente o caráter da sociedade. De um lado, os privilegiados e seus aspirantes, herdeiros da casa-grande, e os empenhados em chegar lá, e portanto ferozes e arrogantes em graus proporcionais. Do outro lado, a maioria, em boa parte herdeira da senzala, e portanto resignada e submissa. De um lado uma elite que cuidou dos seus interesses em lugar daqueles do País, embora o Brasil represente um patrimônio de valor inestimável, de certa forma único. Do outro, a maioria conformada, incapaz de reação porque, antes de mais nada, tolhida até hoje para a consciência da cidadania.

O povo brasileiro traz no lombo a marca do chicote da escravidão que a minoria ainda gostaria de usar, quando não usa, e não apenas moralmente. Aqui rico não vai para a cadeia, superlotada por pobres e miseráveis, e não se exigem desmedidos esforços mentais para localizar a origem dessa situação medieval. Trata-se simplesmente de ler um bom, confiável livro de história.

Será possível constatar que afora o devaneio de alguns poetas e a reflexão de alguns pensadores, o maior problema do Brasil, a desigualdade gerada pela escravidão, nunca foi enfrentado com o ímpeto e a determinação necessários. Nos anos de Lula, agredido por causa do invencível preconceito pela mídia nativa, na sua qualidade de perfeita representante dos herdeiros dos senhores de antanho, a questão foi definida com nitidez. Mas se o diagnóstico foi correto, os remédios aviados foram insuficientes. Poderia ser de outra maneira? Melhorar a vida das classes mais pobres não implica automaticamente a conquista da consciência da cidadania, que há de ser o objetivo decisivo.

CartaCapital confia na ação da presidenta Dilma e acredita que seu governo saberá dar prosseguimento às políticas postas em prática pelo antecessor e empenhar-se a fundo no seu próprio programa de erradicação da miséria. Sem esquecer que o alvo principal fica mais adiante.

Mino Carta